Na primeira série, João Eduardo leu uma adaptação da Odisseia, de Homero. Na época, meu aluno tinha 7 anos, mas não hesitou diante das 200 páginas do livro. Hebert, também uma criança ainda, repetiu a nona série, mas manteve seu passatempo: ler o dicionário de cabo a rabo.
João Eduardo e Hebert foram duas mentes superdotadas que passaram pela minha vida. E como toda inteligência fora do comum, eles sofreram.
A maioria dos relatos do gênero é de alunos que não se encaixam no meio. Muitos sofrem bullying, ficam quietos, param de falar, de expor suas ideias. Corrobora para este quadro o modelo de educação atual, centrado no professor – que, convenhamos, nem sempre está de boa vontade e/ou acompanha as ideias dos jovens superdotados. Este modelo é propício à expulsão dos talentos dos bancos escolares. Os profissionais da educação, ainda presos ao púlpito em cima do tablado para manterem-se longe dos alunos, não conseguem aceitar que não sabem tudo. E o aluno que sabe algo diferente ainda é visto como insulto.
A questão da disciplina é outro monstro. Alunos com altas habilidades têm problemas sérios com arbitrariedades – e a escola é um ambiente arbitrário. Fora que é enfadonho e triste sentar numa carteira e encher caderno.
Um modelo centrado na supervalorização do acerto, numa perspectiva que acredita que o conhecimento esteja pronto e acabado, que apenas o saber intelectual tem lugar na escola, também não funciona com esses meninos. Na verdade, não funciona com ninguém, mas isso é outra história.
Incluir para desenvolver
Há 80 anos a educação especial consta na legislação, mas apenas com o advento da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, de 2008, é que esta questão tomou corpo. Desde o ano passado, os incentivos federais de estímulo à “caça aos superdotados” chegaram com força até minha cidade. Assim vejo se descortinar à minha frente a possibilidade de ser voluntária em algum trabalho junto aos mocinhos e mocinhas talentosos.A escola tem de acolher, assumir seu papel, parar de por a culpa em outros. Parar de tirar o seu da reta.Quem faz a coisa andar, quer seja com acertos quer seja com erros, somos nós, lá dentro. Somos nós, professores formados para isso.
Esse patamar ainda vai demorar a ser atingido. As crenças limitadoras dos educadores e da sociedade nos impedem de avançarmos de maneira mais contundente rumo a uma educação libertadora.
Vejo uma ilusão absurda atribuindo à falta de dinheiro os problemas educacionais. Isso nunca vai me convencer: acredito que, se houver mais dinheiro, vamos cravejar de pedras preciosas as escolas e elas vão continuar sendo uma prisão de mentes e corpos.
Por Rosana Rogeri
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